REVISTA FAEB N°03  Junho – Julio de 2022

N°03 Junho – Julio de 2022

REVISTA FAEB
Publicação da Federação de Arte/Educadores do Brasil (FAEB)

Editorial por Sidiney Peterson

E tu para que queres um barco, pode-se saber, foi o que o rei de facto perguntou quando finalmente se deu por instalado, com sofrível comodidade, na cadeira da mulher da limpeza. Para ir à procura da ilha desconhecida, respondeu o homem. Que ilha desconhecida, perguntou o rei disfarçando o riso, como se tivesse na sua frente um louco varrido, dos que têm a mania das navegações, a quem não seria bom contrariar logo de entrada. A ilha desconhecida, repetiu o homem, Disparate, já não há ilhas desconhecidas. Quem foi que te disse, rei, que já não há ilhas desconhecidas. Estão todas nos mapas, nos mapas só estão as ilhas conhecidas, e que ilha desconhecida é essa de que queres ir à procura. Se eu to pudesse dizer, então não seria desconhecida. Saramago, O conto da ilha desconhecida.

Quantas vezes já lemos em artigos, teses e dissertações sobre a importância da arte na educação? Quantas vezes já pensamos o quanto a pergunta pode nos direcionar a uma certa “condição interminável” (PEREIRA, 2010) de “justificar” a arte na educação? Como tratamos ou como temos tratado as perguntas e os efeitos que elas são capazes de produzir em nós?

O que se aprende quando se ensina artes? Problemática que orienta o processo de organização e das reflexões que compõem a presente edição da Revista FAEB poderia cair em um “lugar comum”, tão visitado sobre a importância do ensinar e do aprender artes (visuais, dança, música e teatro), o que, de certo modo, o faz, não para ser repetitivo ou ainda visitar “ilhas já conhecidas”, mas para colocar em circulação, a partir de diferentes maneiras de pensar, a relevância das artes no processo crítico/formativo, bem como para buscar avançar em outros espaços, pois interessa o pensar também sobre: o que não somente é possível as/os estudantes aprender, mas o que nós, arte/educadoras e arte/educadores, aprendemos no processo de ensinar artes?

A questão – O que se aprende quando se ensina artes? – propõe que realizemos ponderações acerca das nossas práticas arte/educativas, vasculhando os nossos processos – de ensino e de pesquisa –, esmiuçando o que nos mobiliza quando ensinamos para criar outros horizontes para as relações entre arte e educação e, nesses horizontes plurais, ampliar os limites, borrar fronteiras, observar as fragilidades do nosso campo de atuação e provocar o estabelecimento de outros modos de se pensar, ensinar e aprender artes.

O que se aprende quando se ensina artes? É pergunta/provocação que abre esta edição da Revista FAEB. Gabriela Santana e Mabel Emilce Botelli nos apresentam suas reflexões sobre o que se aprende ao ensinar dança. Da área de música, contamos com a participação de Glauber Resende Domingues e Francinaldo Gomes Paz Júnior. Do campo do teatro participam Cristiano Fernandes e Thacio Fagundes Vissicchio. Olga Egas e Daniela Schneider colaboram com considerações sobre o que aprendem ao ensinar artesvisuais.


Em Narrativas Visuais, Glauce Santos nos apresenta a série “As Águas”. Na parte de “relatos”, Lucian José de Sousa Costa e Costa/Áureo Déo DeFreitas Júnior escrevem sobre «Formação inicial e continuada de professores de Arte/Música na educação básica», lembrando-nos de que “o ensino básico depende de professores qualificados […], para isso torna-se imprescindível além da formação inicial a sua formação continuada” que abrange, entre outros aspectos, “as experiências no campo de trabalho”.

Vice-presidente da FAEB (gestão 2017-2018), Ana Paula Abrahamian é a homenageada nessa edição. “Escrita para Ana” e “Entre percursos, lutas e afetos” são textos/memórias/homenagens, elaborados por Fabiana Vidal e Sonia Vasconcellos, respectivamente, para a homenageada.

Trazer “à tona os saberes e histórias que cada estudante transporta em suas bagagens pessoais a partir de outras dinâmicas educativas no qual o meu corpo também faz parte do processo” compõe o processo de ensino e aprendizagem que Thalita de Cássia Reis Teodoro nos apresenta em suas reflexões em O que estou lendo?

O que se aprende quando se ensina arte? Para buscar responder é preciso tomar posição, “gesto nada simples” já que tomar posição é necessário […] “afrontar algo”. […] “situar-se no tempo”. […] “situar-se no presente” (DIDI-HUBERMAN, 2017) para vislumbrar futuros possíveis.

Boa leitura!

Referências
DIDI-HUBERMAN, Georges. Quando as imagens tomam posição: o olho da história, I. Belo Horizonte: UFMG, 2017.
PEREIRA, Marcos V. Educação e arte: a consolidação de um campo interminável. LAV – Revista Digital do Laboatório de Artes Visuais. N. 4, Ano III, Santa Maria: UFSM, 2010, p. 119- 138. Disponível em: https://periodicos.ufsm.br/revislav/issue/view/137
SARAMANGO, José. O conto da ilha desconhecida, São Paulo: Companhia das letras, 1998